sábado, 3 de janeiro de 2009

Feminae


Feminae


Lá vem ela de novo. Meu Deus, o que faço?
Sinto-me diferente quando a vejo. Será que alguém já percebeu?
É estranho. Sinto minhas mãos gelarem, assim como o meu estômago que treme e revira, vira, ira... Cubos de incertezas mal batidos em mim.
Transpiro pelo nervosismo, mas é pela minha testa que goteja a ansiedade. Alguém me disse que quando passo naquela rua (na rua dela) meus olhos brilham. Quisera ela correspondesse à luz dos meus olhos.
Mas o que estou dizendo? Jamais ela olhará para mim assim... Eu acho...
Pensei em escrever algumas coisas para ela, mas o que diria?
Sinto medo do que sinto. É demasiadamente profundo, profano, proceloso, problemático, profuso... Só não é prosaico. Creio que é amor... Não sei... Tenho medo.
Imagino como seria beijá-la, a que céu chegaria ao tocá-la e se ela seria capaz de me fazer sonhar de olhos abertos.
Passo os dias a imaginar coisas, a sonhar sonhos que jamais imaginei sonhar. E agora lá vem ela em minha direção. Não sei o que dizer. Ela sorri para mim e lentamente vejo abrir a sua boca, “loca” é a sensação que arrepia em mim. Carismaticamente, ela sorri e diz:
“- Linda a sua saia!”
“- Obrigada!”





Adriana Kairos

Faca de dois gumes


Faca de dois gumes


O vento açoitou
O lençol que estava
Sozinho ali,
Naquele varal trêmulo,
Quase esturricado pelo sol.

Veio a brisa
E o beijou ternamente...


O que quer o vento afinal?
E qual a intenção da brisa?

Nem todo açoite mata.
Nem todo beijo é doce.

O vento disse açoitar o lençol
Para lembrá-lo de que não está só
De que logo sairá dali
E voltará ao armário (sua casa)
Que em breve será útil
Outra vez.

Por sua vez
Disse a brisa ao lençol
Com um sorrisinho
Ao canto da boca...
Que o beijou
Para lhe acariciar
A solidão
E que precisava
Sussurrar lhe baixinho
Ao pé do ouvido assim:
“Conforme-se, a vida é assim mesmo...”

Em quem acreditará o lençol?
Até aonde queimou sua razão
Sob o sol?



Adriana Kairos

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector