sábado, 2 de fevereiro de 2013

A remetente e o destinatário



A remetente e o destinatário
Adriana Kairos


Ele não sabia o quanto ela havia esperado. E não fazia a menor diferença. As lembranças, os sonhos, os desejos, a loucura, tudo aquilo era só dela. Só ela ainda era fiel àquele sentimento, àquela religião que se tornou seu nome e sua existência. Escreveu-lhe tantas vezes, durante tanto tempo, por tantos anos... Suas cartas de remetente platônica e destinatário alheio. Nunca as pôde remeter. Não se enviam palavras sem destino. Alguns destinos se perdem em palavras ao acaso. "Melhor assim..." disse firme a razão à remetente platônica. Não há “melhor” assim! - gritou em visível agonia o inconsequente "comboio de corda" aprisionado ao peito. O corpo, dócil máquina domável, num comando veemente da Lucidez, passou a fingir tão completamente que chegou a acreditar que não era nada a dor que aquela pobre alma deveras sente.

2 comentários:

Luciana Pitanga Valadares disse...

Ai, esses amores platônicos...sempre geram belas inspirações como esta!
Lindo texto!

Ana Pereira disse...

Boa tarde
Passei pelo teu cantinho para te dar a conhecer o meu modesto espaço de poesia.
Espero que gostes. Um abraço, Ana Pereira
http://almainspiradora.blogspot.pt/

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector