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segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

De dentes-de-leão e de terras estranhas



De dentes-de-leão e de terras estranhas

Adriana Kairos



Só senti isso uma vez e foi quando o chão sumiu de mim. Aos poucos a terra que plantava minha vida em “Nerverland” se perdeu dos meus pés. Uma dor como a de um parto me tomou as costas e brotaram então, algo como pétalas. Pétalas voadoras saiam de mim. Não tive dúvidas, era cheiro de novo, de tudo novo, daquele tipo de aroma que só se sente uma vez. Aspirei com vontade, enchi os pulmões para guardá-lo uma eternidade. Me preparei para o salto, tomei impulso... e já não era mais dali. Neverland never more!


Giros no ar, pulos galhofados ao infinito, felicidade de bicho livre. Revoada de pássaros num campo de flores. Ventos generosos me cobriam de atenção. Estava longe demais para qualquer duvidar. Caminho sem retorno, sem parada, sem espera, estrada de luz solar.


Meu sorriso exorbitado ficou pregado no meu rosto como moldura nova de diploma antigo. Como e quanto bem fez isso a minha cara lavada...


Gotas de dentes-de-leão encharcavam minha atmosfera, enfeitavam meus cabelos, sacudiam meu vestido e deixavam em minha pele um arrepio sapeca vigiado de perto por um libidinoso tremor por entre as minhas pernas.


Meus olhos bobos enxergavam a tudo alucinados e carregados de um bocadinho de alienação, cegueira providencial, benvinda quando se é tomado por algo assim, lindo, vivo e delicado como pétalas de uma flor.


Isso não é coisa que se divide, mas que se deixa transbordar infinitamente sobre os que nos reconhece assim... desse jeito bobo e estranho... felizes!


Jamais pude definir esse estado de bobeira, loucura e tesão que me envolveu naquele dia e me trouxe até aqui, a Pasárgada. Contudo, é mais que felicidade o que nos causa esse estranho sentimento que nos faz tolos o suficiente para voar sem aparelhos, para dançar sem canção, cantar em silêncio só com a expressão abobalhada que nos resta nos olhos e sonhar... antes mesmo que nos descanse a terra nos olhos. Ele nos toma sem pestanejar.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A moça e a mosca




A moça e a mosca

Adriana Kairos



Ela era daquele tipo de pessoa, que de tão desprovida, só tinha uma mosquinha-de-guarda. Moça anônima, moça qualquer. Um número numa ficha de entrada de um hospital, de um abrigo, de um lugar qualquer que a acolha, que mate sua fome por algumas horas, que lhe empreste um sabonete para um banho eventual. Um número fora das pesquisas (nunca respondeu ao IBEGE), dentro das estatísticas. Quando morre, um indigente a mais, um Brasil a menos.


Dois quaisquer a deixaram na porta de um outro-qualquer hospital. Ela grunhia segurando a barriga inchada, pequena, parecia um calo. Foi socorrida por outros anônimos-enfermeiros e levada ao centro cirúrgico. Era caso de urgência. Era caso de fome ou morte.


Tinha mesmo mais fome que dor. Deu a luz a um bebê tão faminto quanto ela. A mosca entrou pela janela da enfermaria e observou a tudo e a todos de um canto da parede. A tudo: seu sofrer, seu chorar, seu medo, sua desilusão, seu abandono, sua tristeza infinita... A todos os olhares, de horror, de preconceito, de julgamento, de maldade, de descompaixão cristã.


A mosca só a observava, não se metia, não interferia em nada. Nada. Observava apenas. Outra coisa também não podia fazer o guardião diminuto, sempre correndo o constante e eminente risco de uma palmada mortal de algum desavisado. Uma mosca com status de anjo. Foi o que sobrara para ela, para a moça com o corpo e a idade que a rua lhe dera.


A mosca também a acompanhou na sala de parto e seguiu velando-a por toda a noite. Ela se sentia impotente. Que raios de guardião eu sou. Aproximou-se da moça e passou a observá-la da cabeceira da cama. Sempre tinha alguém tentado espantá-la de seu posto. Sobrevoava para salvar-se e voltava, sempre, para o mesmo lugar.


Uma enfermeira quis mostrar a moça sua cria. Ela respirou fundo, fechou os olhos, estendeu os braços para afastar qualquer tentativa de aproximação e disse não. Deitou e fingiu dormir. Despertou com o som do carrinho que trazia a ceia noturna. Sentou-se a beira da cama e devorou os biscoitos, as geleinhas em potinhos descartáveis e o suco. Ávida como nunca, pediu o que sobrara das outras internas da maternidade.


Quer ver sua filha? Enfermeira insistente.


O seu olhar vazio chocou as outras mães da enfermaria, mas ninguém disse nada. Todos ficaram mudos diante do que acontecia. Diante da miséria-ferida aberta e sem médicos para suturá-la. O que dizer ou o que fazer? Perguntaram-se todos sem palavras.


Ela pensava em não-sei-o-quê. A mosca jurou que ela sonhava. Contudo, a moça sabia que esse privilégio sua origem não lhe dava.


Não quero vê-la. Quero que a levem para um outro destino.


A encaminharemos ao conselho tutelar.


O tempo passou nas gotas cansadas do soro sobre o suporte. A moça, saciada de sua fome e de seu desejo materno, admirava calmamente sua mosquinha guradiã. Cansada de velá-la, a mosca sobrevoou um pouco mais o seu leito, sabia que a moça também cansara.


A mosca pousou dormida sobre o ventre da moça dormente. A moça descansou seus olhos e suas mãos sobre a mosca. A mosca não a velou mais, nem a moça sentiu fome outra vez.

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector

Adriana Kairos - Jornal Futura (Canal FUTURA)