
O menino voador
Atirou-se do alto daquele girassol
Em suave e vertiginoso vôo.
Abriu o peito para planar
E as mãos em conchas a moedar
Dançando por entre as correntes de brisas
Deixando-se levar
A seus delicados e sovinos sabores.
Céu azul
A retina cisma cinza.
Luz amarela do sol
No amarelo dos olhos do menino voador
No amarelo dos dentes
Da sede que racha a boca.
Amarela é a fome
Que teima lhe fustigar.
A cola amarela febre
Do pó, da pedra e do chão
Sopraram-no ao girassol
Do esconderijo perfeito.
Viadutar.
Voa, menino, voa!
Com seus olhos de achar
Liberdade e abrigo
Pois comida não há.
Voa, menino, voa!
Com seu olhos de despertar
A minha mediocridade, menino;
O meu não saber o que te dizer
Enquanto voas
Corro contra o tempo
Do meu bom relógio
E ele, apontando-me um braço cocho,
Trabalha contra mim.
O teu tempo é o agora,
Porque existem coisas
Que não se podem esperar.
Faço questão de não vê-lo planar
Não me interessam seus ares
Fecho o vidro
Atravesso a rua
Olho para outros céus
Azuis.
Não gosto de cinza.
Ignoro a vertigem da sua queda
Aquela anunciada por todos.
Manchete da tv
Que a todo momento
Vem mostrar
O miserável daqui.
Adriana Kairos