quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Primeiro beijo


Primeiro beijo


Não sei como abrir os olhos.
E por que deveria?
Se o melhor que vivi
Nestes meus
Treze anos de existência
Deu-se no breu
Do céu
Da sua boca.

Não sei como te olhar
Depois que a mágica acabar
E por que acabaria?
Se me encanta o feitiço
Que me seduziu.
Fui lançada a boca do sapo
Que bom!
Virou príncipe.

Divago enquanto te beijo.
Divago enquanto espero
Seus olhos beijarem os meus.



Adriana Kairos

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

O menino voador


O menino voador


Atirou-se do alto daquele girassol
Em suave e vertiginoso vôo.
Abriu o peito para planar
E as mãos em conchas a moedar
Dançando por entre as correntes de brisas
Deixando-se levar
A seus delicados e sovinos sabores.
Céu azul
A retina cisma cinza.
Luz amarela do sol
No amarelo dos olhos do menino voador
No amarelo dos dentes
Da sede que racha a boca.
Amarela é a fome
Que teima lhe fustigar.
A cola amarela febre
Do pó, da pedra e do chão
Sopraram-no ao girassol
Do esconderijo perfeito.
Viadutar.

Voa, menino, voa!
Com seus olhos de achar
Liberdade e abrigo
Pois comida não há.

Voa, menino, voa!
Com seu olhos de despertar
A minha mediocridade, menino;
O meu não saber o que te dizer

Enquanto voas
Corro contra o tempo
Do meu bom relógio
E ele, apontando-me um braço cocho,
Trabalha contra mim.
O teu tempo é o agora,
Porque existem coisas
Que não se podem esperar.

Faço questão de não vê-lo planar
Não me interessam seus ares
Fecho o vidro
Atravesso a rua
Olho para outros céus
Azuis.
Não gosto de cinza.

Ignoro a vertigem da sua queda
Aquela anunciada por todos.
Manchete da tv
Que a todo momento
Vem mostrar
O miserável daqui.




Adriana Kairos

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector