domingo, 17 de julho de 2011

Alm’inha-minh’alma




Alm’inha-minh’alma

Adriana Kairos





Fui tão seca ao deserto de minh’alma
Beber de tudo o que lá deixei
Eu estava tão sedenta
Que força em mim não tinha
Tão seca
Tão desértica
Como quem pede Coca-cola num bar
Por impulso clamei por ela
- Alm’inha-minh’alma...
Mas dela resposta não vinha.

Pobrezinha...
Era agora tão erma
Tão seca, tão vazia, tão sozinha
Que nem areia nela tinha
O vento seco que por ela passou
A balançou como latinha oca a beira da pista
Não encontrei mais nada
Naquele imenso mundo-de-tinha
Que se tornou a alm’inha-minh’alma...

Justo ela
Tadinha...
Justo ela que tinha tanto
Tanto de tanto ela tinha...
Tinha tesouros, desejos e pecados
Carrossel, balão e fitinha
Tinha sonhos, palavrões e dúvidas
Dedal, carretel e linha
Tinha amores de verdade
E tinha amores de mentira
Canudo, refrigerante e latinha
Ela tinha tanto
Tanto ela tinha
Ah... alm’inha-minh’alma...
Não me refresco mais com o que tinha.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

De Superstições e Manias



De Superstições e Manias

Adriana Kairos



Como uma criança tola, aprendi a soprar o tempo sem sequer questioná-lo do porquê de suas pirraças. Alguns dias meu ar se esgota e fico roxa de tanto soprar, contudo, o tempo não passa. Teimoso... Me parece pesado, cansado. Talvez até mesmo de mim.

Nesses dias de tempo cansado, pirraçado, nem meus livros me trazem qualquer repouso. Me sinto aprisionada em mim mesma e escrevo como quem bate a porta do cativeiro angustiada por sair.

Em outros, nem faço esforço. Na verdade, nem me movo que é pra não espantá-lo e implorá-lo, na minha carente paralisia, que fique um pouquinho mais. Que fique um pouquinho mais e me conte mais histórias. Dessas histórias que se trazem de longe, que se trazem de onde só imaginação espantosa pode achar. Mas, mesmo assim quietinha passam as horas...

As horas são crianças mudas brincando de ciranda com o coxo ponteiro bobo do meu relógio. Não param. Não, essas crianças não param. Não param. E foram elas que me ensinaram a soprar o tempo. Como mandinga, como amuleto, por superstição, por brincadeira ou por medo... Aprendi. E sopro... Hoje um pouco mais devagar que ontem. Hoje tenho que soprá-lo assim, bem de leve, quase como uma carícia morna. Como quem sopra dentes-de-leão ou bolhas de sabão... Bem devagar... Devagarzinho... Não sei se faço tudo isso por medo. Às vezes nem sei se quero fazê-lo. Que estranho! A gente vai adquirindo cada mania com o passar do tempo.

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector