segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Ana e o Mar


Ana e o Mar
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

Veio de manhã molhar os pés na primeira onda
Abriu os braços devagar e se entregou ao vento
O sol veio avisar que de noite ele seria a lua,
Pra poder iluminar Ana, o céu e o mar

Sol e vento, dia de casamento
Vento e sol, luz apagada no farol
Sol e chuva, casamento de viúva
Chuva e sol, casamento de espanhol

Ana aproveitava os carinhos do mundo
Os quatro elementos de tudo
Deitada diante do mar
Que apaixonado entregava as conchas mais belas
Tesouros de barcos e velas
Que o tempo não deixou voltar

Onde já se viu o mar apaixonado por uma menina?
Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar

Ana e o mar... mar e Ana
Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir

Ana e o mar... mar e Ana
Todo sopro que apaga uma chama
Reacende o que for pra ficar

Quando Ana entra n'água
O sorriso do mar drugada se estende pro resto do mundo
Abençoando ondas cada vez mais altas
Barcos com suas rotas e as conchas que vem avisar
Desse novo amor... Ana e o mar

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Tempo são


Tempo são


E a vida segue num tic
De tempo tac
De horas que somem
Relógios e seus ponteiros
Pessoas vão e vem

Contudo, as horas
Não somem sozinhas
Elas levam consigo
Pensamentos
Alguns desalentos
Porém outros
Teimam
Não deixar-me só

Mais uma vez é o tempo
Vida resumida em horas
Frágeis
Com suas asas invisíveis
De delicada crueldade
Atraindo-me com seu sopro
Suave
Manso
E quente
À lembranças
Que meu espírito
Atormentado
Tem medo de lembrar

Assim como um imã
Para coisas que machucam
Segue meu espírito fugindo
Em vão
De você

Sua sutil presença me assombra
Meu fantasma
Meu remorso
Suas asas negras
A me guardar

Sonho e não te encontro
Só no som do silêncio te vejo
E te ouço no dançar dos ponteiros
Abertos desejosos de abraçar

Danço contigo sobre o relógio
Rodopiando nas pontas
Como uma bailarina
Sobre cada número
Fugindo da rasteira que o segundo
Possa nos dar

Tempo seu e meu
Hora minha e sua
Mesmo se você não está
É hora dos meus remédios
Avisam-me.

E a vida segue num tic
De horas tac
De esperanças mortas
De ter você
Outra vez.



Adriana Kairos

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector