domingo, 20 de junho de 2010

Depoimento


Depoimento




Eu vi quando aquela mulher saiu correndo, moço. Foi depois do tiroteio.

Desceu correndo descalça, tinha os olhos aperreados; eu não sabia o porquê.

Tava com um vestido de chita barata de florzinhas, tão alvinha. Ela chorava muito.

No fim da rua muita gente se amontoava pra ver. Os miolos do neguinho espalhados pelo chão e a dona descalça acariciando o seu rosto, colocando-o em seu colo como se o pusesse pra dormir. Acho que o seu choro foi ouvido por todo o morro. La Pieta.

No chão, lavados pelo sangue do moleque, uns cadernos e uma caderneta de escola.

Tinha muita gente indignada, diziam que era menino bom e que voltava da escola. Eu mesmo já tinha visto ele no "pacote" lá no mercadinho.

Eu vi tudo isso moço, mas não consegui chorar não. Isso foi meio-dia.

Só chorei a noite, na hora do jornal quando o repórter falou assim: "Ação da polícia mata menor envolvido com tráfico de drogas no morro..."

Porra moço, o neguinho era estudante... o moleque era estudante...





Adriana Kairos

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Poema à boca fechada - José Saramago


Poema à boca fechada


Não direi:
Que o silêncio me sufoca e amordaça.
Calado estou, calado ficarei,
Pois que a língua que falo é de outra raça.

Palavras consumidas se acumulam,
Se represam, cisterna de águas mortas,
Ácidas mágoas em limos transformadas,
Vaza de fundo em que há raízes tortas.

Não direi:
Que nem sequer o esforço de as dizer merecem,
Palavras que não digam quanto sei
Neste retiro em que me não conhecem.

Nem só lodos se arrastam, nem só lamas,
Nem só animais bóiam, mortos, medos,
Túrgidos frutos em cachos se entrelaçam
No negro poço de onde sobem dedos.

Só direi,
Crispadamente recolhido e mudo,
Que quem se cala quando me calei
Não poderá morrer sem dizer tudo.


(In OS POEMAS POSSÍVEIS, Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição)

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector