terça-feira, 5 de janeiro de 2010

A tourada


A tourada




Percebeu que o inverno se aproximava quando as folhas de cartas, telegramas e postais cobriram o chão do quarto, caídas do alto das mãos de um carteiro. Intensas rajadas de angústias frias, tempestades de terror por dentro e uma estranha sensação de contentamento. Dava início a um cenário denso, tenso, por toda miscelânea de coisas que sentia. “O inverno, o inferno, está voltando”.- pensou.
Na primavera dos seus sonhos todas as cores se apresentaram sorridentes. Foi gracejada com flores perfumadas. Tomada por beijos estrelados sob noites de formosa lua e pelas manhãs, o seu sol vinha-lhe abraçar o corpo para espantar qualquer brisa fria que a tivesse feito arrepiar a pele. Jamais sentiu tanta felicidade. Cria que o paraíso era assim, ali.
No advento do verão, seu sol a fez arder de paixão. Quentes brisas a envolvia pelas manhãs e noites. Começaram a transpirar intensos desejos, loucuras sodómicas, na invenção de um novo Kama Sutra. Era o início das tempestades da estação. Sua personalidade dócil, acentuada por uma criação puritana, apesar de amar perdidamente a força e a majestade do seu astro, vivia em constante choque com a nuvem carregada e selvagem de estrogênios e lascívia, que ele trazia. Mas no fim, quase sempre, se rendia. Bastava só que ele trovejasse a sua urgência que ela logo aspergia a sua perdida puberdade a cama, sua “Plaza Del Toro”, onde toreava, sem força ou honra, contra um animal que lhe vencia sempre e sob aplausos (dos amigos). “O macho”.
No outono, ele não era mais o seu sol, mas um pesadelo cigano que ia e vinha à revelia. Ele era obsessivo e esse sentimento a incomodava, no entanto, era incapaz de reagir. Perguntava-se o por quê, mas não obtinha de si mesma a resposta. Contudo, só a remota possibilidade de não vê-lo, por um tempinho que fosse, dava-lhe novo fôlego. Assim, sentiu-se agraciada, de certa forma, quando mais uma vez ele sumiu. Deixando-a prisioneira sem defesa, voz ou direitos, por muitas semanas, em seu inóspito quartinho. Durante todo esse tempo teve a mente torturada com mensagens sádicas de regresso, enquanto definhava em desespero, medo e solidão. Regava em si a baixa-estima e depreciava-se por lhe faltar coragem de agir em seu próprio favor. Desenvolveu, em sua clausura, seu ópio mental, na tentativa de transpor, para outro e qualquer lugar, sua alma. Entoando uma antiga canção francesa, como se fosse um mantra, por várias horas. “Ne me quitte pás” era entoada e transcrita com exímia caligrafia em papéis perfumados a Channel, por pelo menos, algumas centenas de vezes. Como uma súplica doentia de uma mente confusa, ocultando em seu canto as intenções nefastas do seu coração.
Pressentiu a sua volta quando o frio atacou-lhe os ossos. Ainda assim, prosseguiu no que ruminava há tempos. E em gestos premeditados, arrumou cuidadosamente os cabelos, pintou a boca de carmesim e os olhos de preto. Pôs seu melhor vestido, um de saia godê, encarnado, com um suntuoso decote as costas e perfumou a nuca com o Channel. Como num ritual, escreveu num papelzinho, com as letras caprichosas da prática das transcrições constantes do seu lamento francês, algo que deixou sob o frasco do perfume. Também preparou algo para beber, o qual tragou num só gole. Ao som das castanholas do tempo, pôs-se ao centro da “Plaza” empunhando em uma das mãos a muleta, igualmente vermelha, de torear; do jeitinho como o tal a recomendara.
Ventos, demasiadamente, fortes açoitaram todo o lugar, levantando as folhas do chão, desalinhando os cabelos da moça, metodicamente, preparados para a ocasião. E derrubando o frasco de perfume sobre o bilhetinho, manchando-o com o aroma que tantas vezes marcou aquelas touradas. O vendaval anunciava a presença dele. Tomou o derradeiro gole, fez pose de toureira e danou a girar, ensandecida, sobre a cama. A primeira investida caiu desmontada sem os sentidos. Ele não se fez de rogado. Arrancou, à força, o vestido encarnado, numa urgência e necessidade, tal qual um animal. Borrou-a com o próprio batom com beijos e carícias jamais vistas. Não fez conta da sua indiferença, deixando-o fazer todo o trabalho, sem ao menos resistir a sua violência. Lambuzou-se. E mais uma vez, estatelado sobre a “Plaza”, sentiu-se o rei, o homem, o macho! Julgou que ela dormia quando se levantou a reclamar a desordem do quarto, a janela aberta e o frasco de perfume caro desperdiçando-se sobre o móvel. Deu-se conta do bilhete manchado sob a penteadeira. Leu. Vestiu-se as presas sumindo mais uma vez.
Ela foi encontrada, dias depois, dormindo, com um ar de “La Gioconda” no rosto, abandonada no mesmo lugar.



Adriana Kairos

6 comentários:

manuel marques disse...

Tourada de *****.

Abraço.

Amapola disse...

Adriana... eu já fui essa personagem.
Ainda bem que ao contrário dela, eu sobrevivi. Quantas mulheres já foram ou estão sendo.
Os hormônios nos escravizam... tiram a nossa auto-estima.
Uma das poucas vantagens que a velhice nos oferece, é essa neutralidade... é a paz no corpo.
Não tem touro nem toureiro.

Leandro Fonseca disse...

amiga, como está você? Tenho tanta saudade! Gostei muito do seu texto... Coloquei uma fotinha do seu livro, como divulgação, em meu blogue Tropecei em uma Ideia! O que acha de me dar uma entrevista pra divulgação, hein? Parabéns pelas suas obras! Ter escritores como você no Braisl dá até orgulho! Meu beijo!

Leandro Fonseca disse...

ah, e eu quero participar do nosso quadro do seu blogue, hein! Beijão!

Amapola disse...

Passei aqui para lhe desejar um bom dia.
Abraço.

Silvana Nunes .'. disse...

Salve o NOVO ANO !
Que ele venha coroado de muita LUZ, de PAZ e de Saúde. E que estejamos juntos por mais um ano.
Que Assim Seja !
Olá, como vai ? Estou aqui para divulgar um pouco da minha cultura, a história de nossos antepassados ( que amo muito e tenho receio que se perca em meio a essa enxurrada de informações que somos acometidos ultimamente) e, para isso, FOI DESSE JEITO QUE EU OUVI DIZER... começa o ano contando um pouco sobre esse espetáculo maravilhoso que é a FOLIA DE REIS ou REISADO, comemorado no dia 6 de janeiro. Aqui eu também coloco as famosas simpatias das Romã, muito utilizada no dia 6 de janeiro para atrair dinheiro. Para quem curte uma simpatia, vale a pena fazer.Venha conferir.
E para quem não conhece o meu espaço, convido a dar uma chegadinha até lá para conhecer o meu cantinho de histórias, o link está logo abaixo.
Que os bons ventos soprem a seu favor neste ano de 2010.
Saudações Florestais !
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"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector