
Conjugando desigualdade
Nos é ensinado assim:
Eu sou a autoridade e com a minha pistola na mão digo que
Tu é vagabundo, pivete, semente do mal, fa-ve-la-do do caralho! Ele sim, tu tá veno?
Ele é trabalhador. Homem bom. Deu emprego pra muita gente ai, na eleição passada.
Nós somos cidadãos de bem. Guardiões da moral e da ordem. Não somos como vocês: baderneiros, barulhentos, dançadores de funk... Música do inferno.
“- Cabo Silva, pode levar esses merda ai tudo. São tudo bandido e acabo”.
O presente é indicativo da intolerância
Do preconceito radicado em nossa cultura
Num pretérito imperfeito da nossa história.
História que nos ensina a conjugar adjetivos
Malditos
De realidades que queremos
Mas que não sabemos
Ao certo
Como comutar
Ou não queremos... Não sei.
É que alguns de nós
Dos seres periféricos
Deixaram-se vender sem perceber
E apesar de crerem estar normativamente
Errada a forma como nos é imposto
O breviário das coisas dos nossos dias
Repetem em alta voz
O discurso alheio,
O do “cidadão de bem”;
Ainda que a estranheza dessa fala
Corroa-lhe por dentro.
O futuro do nosso presente
Apenas se tornará um simples
Presente perfeito
Composto, dentre outras coisas,
De igualdades de direitos
Quando, enfim,
Aprendermos a conjugar o verbo
Lutar!
Enquanto isso,
Qualquer divagar
Não passará mais que
Um suspirar poético de um pensar
Antigo e fresco
Do insistente querer de justiça.
Nada mais.
Adriana Kairos