sábado, 16 de outubro de 2010

O meu B-612


O meu B-612




A vida passa tão apressada quase não a posso alcançar. Meus braços se estendem, se esticam, num anseio louco de tocar o intocável que passa e vai. Esvai-se, então, o inatingível por entre os meus dedos, lisos, como a pressa do vento. Chego a pensar que as pessoas, os carros e as coisas são apenas vultos velozes a passar por mim. É tudo tão rápido. Zum, zum, zum... E eu aqui.

Vivo em um mundo estranho, só meu, o meu mundo-meu, aonde o tempo não entra; aonde a velocidade da vida não existe. O que há e o que me conecta ao mundo-seu é só o liso zum-zum-zum do vento a minha volta. Não há tempo, pessoas ou coisas; nada e nem ninguém me aborrece, apenas as indagações da minha flor - a mente.

Permito-me, vez ou outra, esconder-me neste refúgio. Como um ponto de luz num espaço vazio do meu ser, a redenção dos mortais degredados de Eva, o respirar profundo e descompromissado de quem só deseja viver. Vivo! Enquanto dá. Longe de vida-alheia, da vida-inteira que a vida preparou para mim. O meu silêncio, o meu estado-outro, o outro eu de mim em mim mesmo. Nem eu o conheço. Sorrio apenas a esta serenidade perturbadora que me rodeia nestes instantes de fuga de mim; quando me aproveito de uma migração de pássaros selvagens para sair daqui... Fuuuuuuuuuu... E fujo... Dessa vida com pressa, desse mundo-seu direto, para o meu lugar.

Tocar o céu e o sol com a mão, rir do som das bolinhas de gude de um menino, deixar-me ser acariciada pelo vento, saber que este momento é só meu me liberta do medo, da solidão que eventualmente flerta minha alegria, do breu que insiste se esconder num cantinho qualquer de mim.

Entrego-me, então, ao miraculoso, ao sagrado e imutável segredo que é viver... Vez ou outra... Apenas... Entrego-me. E o faço sem reserva e sem medo. Sem medo! Este já não me assusta mais. Sei que sou mais que músculos e ossos. Sou SER. Orgulho-me disso. Dessa coisa de ser habitante único e soberano do meu próprio B-612. Tenho minha flor e meu vulcão e isso é tudo o que me basta.

Nunca quis ter nada, meu sonho, desejo absoluto que persigo incansavelmente é SER! E viajo sem bagagens nesta busca. Não quero nada que me prenda aqui, ali ou acolá. Fecho os meus olhos e vou. O SER viajante é um ser em constante aprendizagem, em constante liberdade, capaz de ajudar outros SERES a serem seres infinitamente mais sonhadores, humanos, transformadores e felizes. Um pequeno príncipe ele é.

É engraçado eu falar agora sobre a felicidade. Acho que nem acredito nisso. Vivo um momento de total descrença deste e de outros sentimentos. Mas, veja bem, sinto isso hoje... Por enquanto. Pode ser que eu mude de idéia e volte a crer no feliz. Talvez jamais eu tenha deixado de crer, escondi-a dobradinha em mim... Não sei... Não sei... Por hora sigo assim, limpando o meu vulcão.





Adriana Kairos

3 comentários:

manuel marques disse...

Ensinam-nos a viver quando a vida já passou .

Abraço.

Poemas do Jorge Jacinto disse...

Muito legal seu blog! Parabéns! Abraços, Jorge.

taynara_safadinha_sapekinha disse...

lindohh

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector