sábado, 4 de dezembro de 2010

Silêncio em casa


Silêncio em casa


Por alguns segundos o silêncio. E a vida deixou de ser naquele instante. Na verdade, o silêncio ecoou por anos, num estridente grito sem som de lágrimas quietas no desamparo frágil da noite. Noite após noite. Mas ninguém ouviu. Ou não quis ouvir... que seja! No entanto, será que ela pôde ver o remorso antes da viagem? Porque ele estava lá, na sua frente, diante dos seus negros olhos de jabuticaba. E faria alguma diferença vê-lo? Seu corpo havia se habituado a calar; roxeando mágoas a cada dia. Derramando angustia baixinho pra ninguém escutar. Até os pequenos que antes choravam e gritavam, intercedendo e clamando piedade, de tanto presenciar covardia, também se acostumaram às cenas. Repetido e velho filme mudo, sons surdos, cheiro de terror da cozinha à sala de estar. E gritar pra quê? Se o silêncio sempre fora a resposta. Você meteria a colher? Discreto odor de pólvora. Terrível sabor de sangue na boca. Derradeiro gosto. O 190 demora, não intercepta o disparo. Ninguém viu nada. Essas coisas poucos vêem. Quiçá ouvem, quanto mais interfere. Ninguém. Calado sentou a seu lado. Em ataranto, ali fincado, ouviu a silenciosa agitação das lágrimas dos órfãos. Filhos da sua embriaguez, filhos da sua estupidez, filhos da sua infelicidade. “O que foi que eu fiz?”- perguntou a si mesmo num breve segundo de lucidez. Ah... a lucidez, a mudez cega das inquietações. Enfim, chegaram. Contudo, só encontraram uns três pares de pequeninas jabuticabinhas assustadas ofegando sons vazios de horror, de tristeza, de abandono e de solidão. O autor da trama infeliz fugiu dali, na calada da noite. E como já era de se esperar... ninguém viu. Foi o que disseram. O silêncio permanece na casa.



Adriana Kairos

Um comentário:

Amapola disse...

FELIZ 2011!!!

BEIJOS NO CORAÇÃO.

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector