quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

A resposta


A resposta


Um grito de horror.
Um estampido na noite.
Um corpo no chão.
Um choro amargo de arrependimento.
Lauro abraçou aquele corpo largado no chão. Fora a primeira vez em muitos anos que demonstrava algum tipo de afetividade, mas já era tarde.
Tudo silenciou depois do tiro. Tudo era audível agora. Tudo era compreensível também. Só então consegui ouvi-la. Só agora a compreendeu.
O corpo no chão era de sua mãe, uma mulher triste e covarde (burra até). Vítima de si mesma, pois perdoou o primeiro golpe, o segundo, o terceiro, o quarto...
Seu algoz, um menino de quinze anos, decidiu matá-la em doses homeopáticas de desgostos. Há alguns anos passou a carregar em seu corpo cansado, a sua alma repleta de uma desilusão quase alucinógena. Mas naquele dia encontrou uma resposta, uma solução, uma esperança, uma forma para descansar.
Domingo, quando Laurinho (assim ela o chamava) voltou para casa, transtornado como já era de costume, deu-lhe uma arma e disse-lhe:
“- Vamos! Faça agora o que tem que fazer. Tá tudo bem, afinal, será em legítima defesa. Defenda-se do meu amor demasiado. Defenda-se de mim! Porque estou te matando aos poucos cada vez que te perdou...”
Um grito de horror.
Um estampido na noite.
Um corpo no chão.
Um choro amargo de arrependimento.
“- Mãe! Perdão!”
“- Eu te amo filho!”





Adriana Kairos

2 comentários:

Camilla de Souza Ribeiro. disse...

Adri, primeiro pensei - Sem comentários! Contudo, estou comentando... Então, digo - Nossa! Muito forte! Aliás como quase tudo que já tive a oportunidade de ler dos teus escritos. Mais, uma vez parabéns! Também, aproveitando o espaço, o "Isso sim que é poesia" é perfeito! Rsrsrs. Então, quando é que terei aquele texto lá em meu blog? Beijocas da mais nova amiga Milla! xD

Marcelo :. disse...

Quanta verdade, quanta certeza. Uma realidade nua a crua de um cotidiano muito próximo que as vezes não percebemos. Parabéns, foi muito lindo!

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector