terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Menos é mais


Menos é mais



Queria ser menos...
Menos consciente.
Para não me aborrecer tanto
Com a impiedade
Dessa “boa gente Cristã”
Que não consegue amar ninguém
Tão pouco perdoar
Mas que passam os dias
A pedir o perdão de seus pecados
Amém.

Queria ser menos...
Menos romântica.
Para enxergar a beleza
Que os pseudo-s intelectuais
Vêem na miséria.
Conseguir enxergar o que há de belo
Nos fundos olhos amarelos
De um moleque qualquer de barriga seca
Que me implora trocados
Enquanto lancho na boa lanchonete.

Eu queria ser menos
Porque ser menos é mais...
Mais fácil de manipular.
Mais fácil para ignorar
A cara feia do descaso
Do abuso, do mau-trato...
Ao operário, a mulher, ao estudante, ao velho
Ente desse trabalhador
Que morre na fila, aguardando atendimento
De um médico que ele ajudou a formar.

Queria ser mais...
Ser racista
Para não me incomodar
Com as novas senzalas
Construídas em luxuosos apartamentos
Em ínfimos espaços
Que chamam: quarto de empregada
“Seu lugar é esse.”
“Sim, senhora...”

Queria ser mais “politicada”
Para aceitar
Que as melhores escolas e faculdades
Do meu país
Não são para todos
Que o “todos” do slogan só contemplam alguns
E que todos os outros que faltam não são ninguém.

...aceitar que
Os grilheiros são homens de bem
“Grandes produtores do progresso”.
E desenvolvimento da nação.”
“Vossa excelência...”

Ser mais infeliz...
Para assistir pela tevê
Os índios
Os Sem-terras
E os quilombolas...
Chamá-los, mesmo que do sofá,
De desocupados e depois dormir
O tão abençoado sono dos “justos”.
“Boa noite!”

Mas não consigo...
Ainda sonho...
Que um dia a Justiça será curada
De sua cegueira
E enfim, aprumará os pesos
De sua balança...
E que um mundo melhor é possível...
Meu Deus...
Eu ainda sonho...




Adriana Kairos

"Às vezes, tenho a impressão de que escrevo por simples curiosidade intensa. É que ao escrever, eu me dou as mais inesperadas surpresas. É na hora de escrever que muitas vezes fico consciente de coisas, das quais, sendo inconscientes, eu antes não sabia que sabia."

Clarice Lispector